Querido Dane-se - Kéfera Buchmann

Sinopse: Sara tem muitos sonhos, mas também vários problemas para enfrentar. Para começar, seu namorado acabou de uma hora para outra com ela e por WhatsApp. Pouco depois, ela descobriu que o desgraçado está namorando uma socialite linda e admirada. Parou por aqui? Não: Sara, que é estilista de formação, mas trabalha como costureira, atualmente está de plantão na casa dessa socialite, arrumando as roupas dela. Enquanto lida com o ressurgimento do ex e tenta voltar a achar graça na solteirice, Sara sofre com seu maior medo: fazer trinta anos sem achar a sua cara-metade. Entre lágrimas e muita risada, no entanto, Sara começa a repensar sua vida. E a perceber que está diante de uma pessoa cujos anseios e gostos conhece pouco: ela mesma. (Skoob)
BUCHMANN, Kéfera. Querido dane-se. Editora Paralela, 2017. 224 p.

O conteúdo de Querido dane-se reflete perfeitamente o título, e em mais de uma vertente. Primeiro, que ele copia o que já existe em dezenas de outras histórias: a garota perdedora de baixa autoestima, traída pelo namorado, com um amigo homossexual e uma amiga doidona, que trabalha para alguém que acha um saco, que sonha casar, que dá a volta por cima devido ao acaso, que encontra o homem dos sonhos no fim e que faz uma viagem em busca de autoconhecimento. Sim, se você lê, já encontrou partes dessa história em vários outras obras. Entretanto, em todos os livros e filmes onde você encontrou essas partes, a personagem sempre tinha algo que Jussara, a protagonista de Querido dane-se, não tem: moral!

Jussara, ou Sara, é uma personagem amoral, ou seja, ela não leva em conta o que é certo e o que é errado, ela só se importa com ela mesma. É egoísta, desleal, imatura, invejosa, é o resultado de alguém que só enxerga o próprio umbigo. Por todo o livro, a soma de seus sonhos é ser famosa e se casar. Mas para explicar melhor, para não acharem que estou com implicância, vou dar alguns exemplos.

Sara trabalha como costureira para uma estilista, que, logo no início da história, reconhece seu talento, a promove e passa uma cliente importante para seu cuidado exclusivo. Mesmo assim, Sara a trata como uma megera, sem qualquer motivo que seja explicado. E quando Sara encontra uma chance de ser famosa, de ter seu trabalho exposto a nível nacional, não pensa duas vezes em passar por cima de sua chefe. E depois de fazer, não se justifica, apenas diz que não se lembrou e deixa por isso mesmo. Fazer o quê?

Sara tem consultas semanais com uma terapeuta, que tenta ajudá-la a se encontrar, a procurar formas de fazer com que ela consiga acertar em sua vida, como escrever um diário onde poderá ler e repensar sobre o que faz. Mas Sara sempre retratada a terapeuta com insultos nesse diário. E mesmo sabendo que a terapeuta irá ler, Sara deixa para lá, não tem problema ofender quem exerce sua profissão, e a quem Sara procurou por ajuda. Entendam que para existir uma antipatia por alguém, precisa existir um motivo. Não é dada nenhuma explicação. É, porque é, porque a mulher é mais velha, porque sabe mais do que ela, porque é alguém que a confronta com uma pessoa que ela não reconhece ou não aceita.

Sara gosta de baladas. Existem duas que chamam a atenção. A primeira, ela conhece um cara, sai com ele, vai para casa, transa com ele e na manhã seguinte tem certeza que ele é o homem com quem quer casar. Não vejo nenhum problema em sexo no primeiro encontro. Se surgir a química, a vontade, se os dois querem, ótimo! O problema que vejo, é que para Sara não é necessário existir um relacionamento onde eles possam se conhecer, onde ela possa conhecer o passado do sujeito, o que ele pensa, quem ele é, para considerar casar com ele. Ela simplesmente considera qualquer homem como um futuro marido. Isso pode ser normal em crianças, não em uma mulher com 26 anos de idade. E também seria normal se a personagem fosse construída em cima de uma personalidade retraída, que não vivenviou experiências, que está descobrindo o mundo. Não é o caso. Ela simplesmente considera que seu futuro depende de um homem.

A segunda balada, Sara vê um grupo de rapazes, entra no meio deles e dá em cima do que seria o centro da turma. Eles dançam, ele dá um comprimido para ela na boca, que é ecstasy. Ela perde os sentidos, acorda na manhã seguinte pelada na cama dele. Ele conta que não aconteceu nada. Ela aceita numa boa. Ele oferece bebida para ajudar a passar o efeito da droga. Ela bebe. Eles transam. Ele oferece um cigarro. Ela recusa. Depois aceita. E ele ensina ela a fumar, com detalhes. Exato. Ele ensina ela a fumar em um livro para adolescentes. E a personagem age como se fumar e beber fosse legal. Depois, ele conta uma história de como ele foi canalha com a noiva que ele tinha, em como, por isso, ela o deixou e em como, por isso, ele se tornou alcoólatra e drogado. Sara ouve, fica com pena dele e considera normal.

Mais exemplos? Tem uma parte que Sara é convidada para o casamento de uma amiga de quem ela não é muito fã, uma vez que ela tem sucesso, e Sara, não. Na parte da cerimônia onde o padre pergunta se tem alguém que saiba algo que possa impedir o casamento, Sara interrompe, manda a amiga tomar no cu, porque ela não merecia casar primeiro que Sara e vai embora. Todos os personagens próximos de Sara a parabenizam pelo que ela fez, como se realmente fosse certo. Vejam bem: ela foi convidada e estragou a cerimônia por ter inveja da outra mulher, e ela considera isso certo. Inclusive, inveja é o principal fator que move Sara. Ela tem inveja da chefe, da cliente, do ex-namorado, da amiga que morava no exterior, de qualquer pessoa que seja ou que tenha algo a mais que ela. Ela orienta sua vida em torno do sonho de se casar, como se isso fosse resolver todos os seus problemas. Mas ela não sonha de forma romântica, mas preocupada com sua idade e com o que as outras pessoas irão dizer, de ser chamada de tia. Ela não procura relacionamentos verdadeiros, apenas aparências, justificativas para uma sociedade que ela mesma despreza.

Esses são apenas alguns exemplos do que você irá encontrar em Querido dane-se. Eu vejo muitas pessoas justificarem a leitura de livros de péssima qualidade como forma de conquista de novos leitores, como porta de entrada para o mundo literário. Acontece que, os fins nunca justificam os meios. A resposta para o aumento de leitores reside em uma boa educação, feita pelos pais, pelas escolas, pelo governo, aliada a histórias de qualidade, que cativem os leitores por seu conteúdo, e não por quem escreve. Ao invés de gastarem energia pregando algo sem sentido, ilógico, as pessoas que defendem livros de péssima qualidade apenas por serem escritos por pessoas com legiões de fãs, deveriam gastar essa energia educando seu público para saberem votar, saberem cobrar por dignidade, por justiça, por seus direitos como cidadão e, também, saberem identificar quando uma história é boa ou apenas construída para se aproveitar de um público fiel e ignorante de que está sendo usado.

Podem dizer: mas que mal há na leitura de um livro de má qualidade? Qual o problema se a pessoa gosta de quem escreve e deseja ter a obra na sua estante? É simples. Livros de muitos youtubers, ou neste caso específico, o livro Querido dane-se, que é a obra sendo resenhada, é direcionada para o público adolescente, que passa por um turbilhão se sentimentos conflitantes, que busca uma identificação, que sofre um bombardeio de hormônios que confundem sua identidade e a forma como enxergam o presente e o futuro. Nessa época da vida, todos os adolescentes são suscetíveis a qualquer tipo de influência. Aí, uma autora cria uma história com uma personagem amoral, que passa uma mensagem deturpada do que é certo e errado, e atinge uma legião de fãs que passam a considerar certo e normal o que estão lendo. Logo, esses jovens, se não possuírem uma bússola afinada que lhes aponte o norte, irão considerar fazer a mesma coisa que leram.

Muitos youtubers afirmam não terem culpa por serem imitados pelos fãs. Isso é uma forma covarde de fugir da responsabilidade. Eles mesmos gostam de se anunciar como influenciadores digitais. Bem, qualquer pessoa que influencie outra de algo, passa a ser indiretamente responsável pelo que essa outra pessoa faz. Então, sim, eles são responsáveis pelo que os fãs fazem, caso os fãs façam algo com base no que eles ensinam, ou pela forma como eles vivem. Neste livro, a personagem aprende a fumar, recebe ecstasy sem saber e quando sabe, age normalmente, transa em todos os primeiros encontros, independentemente de conhecer ou não a pessoa, trai quem é leal a ela, ofende os mais velhos, faz pouco caso de profissionais, e tudo isso de uma forma natural, passando uma mensagem que pode ser interpretada como coisas a serem imitadas. Não há problema se você considera isso normal, se sua vida é dessa forma. O problema é você criar uma personagem que tem esse estilo de vida e fazê-la agir como se fosse normal para um público de milhares de adolescentes em idade de formação de caráter. Se a personagem aprendesse algo no fim do livro, se ela compreendesse que seu estilo de vida é prejudicial, ainda haveria algo a ensinar, mas isso não acontece.

Se você é mãe, ou pai, ou responsável por alguém de menoridade, que está na adolescência, na pré-adolescência ou na infância, cuidado com o que esse(a) jovem lê e vê. Más influências existem em todos os lugares, em todos os convívios, em qualquer tipo de mídia. Fiscalizar e presar por uma informação de qualidade, não é privar de liberdade, mas cuidar para que a pessoa que você ama, e que depende de você, aprenda o que é moralmente certo. No mínimo, que tenha uma mente capaz de discernir, no futuro, sobre como seguir com sua vida. E se mesmo assim essa pessoa que você ama pegar um livro como Querido dane-se para ler, leia também, mostre para essa pessoa o que realmente é certo e errado, mostre para ela que nem tudo o que ela encontrar no livro deve ser feito, que é falta de respeito fazer pouco dos outros, ter inveja, trair, fumar, beber álcool, se relacionar com pessoas que não conhece, que se receber uma droga, deve denunciar, deve recusar, deve se sentir ultrajado se acordar nu na cama de um desconhecido, que não deve considerar essas coisas parte da vida. Eduque!
Carlos H. Barros
Carlos H. Barros

Carlos tem várias paixões: livros, gibis (muitos gibis), filmes, séries e jogos (muitos jogos de PC e consoles), fotografia, natação, praia e qualquer chance de viajar para conhecer novos lugares e pessoas. Lamenta o dia ter apenas 24 horas - é muito pouco -, e não saber desenhar. Autor também do blog Gettub

7 comentários:

  1. Olá! Pra falar a verdade não curto muito livros escritos por youtubers, assim não fiquei muito interessada em ler esse livro não, concordo plenamente com vocês, os pais de crianças e adolescentes devem ter muito cuidado com que seus filhos lê e vê.

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  2. Ola, Concordo plenamente com você, quem ama cuida, como tenho filha adolescente tô sempre de olho no que ela ta lendo ou vendo, não gostei da premissa do livro e também achei essa Sara uma desmiolada que já passou da hora de crescer, sou das antigas e tem muita coisa que ela faz que não concordo.

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  3. Carl!
    Não é torcer o nariz, pois acredito que temos de ler sem preconceitos.
    Já li um dos livros dela e não gostei muito, porém esse parece ser diferente e quem sabe darei uma nova oportunidade?
    Mas acredito que como formadora de opinião, principalmente para um público adolescente, os exemplos do livro não são nada bons...
    Desejo uma semana maravilhoso!!
    “O primeiro passo para a cura é saber qual é a doença.” (Provérbio Latino)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE SETEMBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

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  4. Nossa fiquei bem chocada com que li nessa resenha sobre esse livro, não estou bem um pouco interessada em ler livro com uma protagonista amoral, invejosa e que tem atitudes tão ridículas. Então deixo passar essa indicação.
    Bjoss

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  5. Não despertou o meu interesse, achei a personagem muito sem graça e desmiolada pois não esta nem aí pra nada tanto faz como tanto fez e não passa nenhum ensinamento para refletirmos.

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  6. Li um livro dela, e foi um desgosto.
    Essa é um leitura que eu realmente passo, pois não vejo qualidade alguma e nem nada que possa acrescentar.
    Uma pena uma pessoa que tem como público alvo adolescentes e podia passar tantas mensagens boas acaba fazendo o contrário.

    beijos

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  7. Olá! Tudo? Meu Deus eu não acredito que essa menina ainda está escrevendo livros! Gente, como assim que no meio da historia ensina a pessoa fumar? Tá é um livro e tals, mas que desnecessário, né? É por isso que eu não leio livros de youtube, é cada historia sem noção que se encontra que eu fico pasma!
    Este ai é um livro que eu não vou ler e juntos com os outros dela.
    Acho desnecessário!

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