Ainda estou aqui - Marcelo Rubens Paiva

Sinopse: Trinta e cinco anos depois de Feliz ano velho, a luta de uma família pela verdade Eunice Paiva é uma mulher de muitas vidas. Casada com o deputado Rubens Paiva, esteve ao seu lado quando foi cassado e exilado, em 1964. Mãe de cinco filhos, passou a criá-los sozinha quando, em 1971, o marido foi preso por agentes da ditadura, a seguir torturado e morto. Em meio à dor, ela se reinventou. Voltou a estudar, tornou-se advogada, defensora dos direitos indígenas. Nunca chorou na frente das câmeras. Ao falar de Eunice, e de sua última luta, desta vez contra o Alzheimer, Marcelo Rubens Paiva fala também da memória, da infância e do filho. E mergulha num momento negro da história recente brasileira para contar — e tentar entender — o que de fato ocorreu com Rubens Paiva, seu pai, naquele janeiro de 1971. (Skoob)
PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Alfaguara, 2015. 295 p.


Não sou grande fã de ler biografias. Talvez seja ignorância minha, mas eu me entedio fácil e é difícil livros desse gênero conseguirem me prender. Tanto que, em quase seis anos de Conjunto da Obra, li apenas uma e foi uma leitura bastante demorada. Por outro lado, sempre quis ler algo de Marcelo Rubens Paiva, em especial seu tão conhecido Feliz ano velho, mas, até agora, não tive oportunidade. Por isso escolhi Ainda estou aqui para resenha e, apesar do receio inicial que as tão temidas biografias trazem à minha vida, mergulhei na leitura de corpo e alma e o livro se tornou, desde já, inesquecível.

Marcelo Rubens Paiva tem uma narrativa não linear que envolve o leitor: em um momento, relembra sua infância cheia de brincadeiras e ainda não marcada pelos traumas; pouco depois, tenta rever determinado acontecimento pela perspectiva de seus pais; e, em seguida, tece reflexões aleatórias sobre o que entende hoje ter acontecido tanto tempo atrás, tudo em um mesmo capítulo. Essa construção pode parecer confusa, mas não é. É ela quem dá corpo a um texto que intercala memórias, reflexões e fatos, retomando as percepções do passado sob outro viés, a partir do entendimento presente. E as memórias, como bem destaca o autor, não seguem padrões.

"A memória não é a capacidade de organizar e classificar recordações em arquivos. Não existem arquivos. A acumulação do passado sobre o passado prossegue até o nosso fim, memória sobre memória, através de memórias que se misturam, deturpadas, bloqueadas, recorrentes ou escondidas, ou reprimidas, ou blindadas por um instinto de sobrevivência. Uma fogueira no alto ajudaria. Mas ela se apaga com o tempo. E não conseguimos navegar de volta para casa."

Nesse mar de lembranças, Marcelo conta a história de seu pai, preso em janeiro de 1971, torturado e desaparecido na ditadura militar. Só mais tarde, décadas mais tarde, foi confirmada a morte de Rubens Paiva e esclarecidos os detalhes. O corpo nunca foi encontrado. Conta também a história de sua mãe, Eunice Paiva, presa e interrogada na mesma época, que teve que se reinventar e reconstruir após o desaparecimento do marido para cuidar de seus cinco filhos.

Mais do que tratar das crueldades e mentiras tecidas pela ditadura, confirmadas por transcrições de matérias jornalísticas e depoimentos reais, o livro demonstra a luta de Eunice para fazer a verdade ser reconhecida. Uma mulher que, para não se deixar abater diante de um sensacionalismo que queria mostrá-la frágil e oprimida pelo sistema, pôs um sorriso no rosto e foi à luta. Uma mulher que, depois de uma vida de tanto sofrimento, foi ainda diagnosticada com Alzheimer.

"[...] É uma confusão recorrente de quem tem um parente com Alzheimer: falar dele no passado. Antes, eu sentia uma culpa sem fim por enterrar na conjugação verbal alguém que está vivíssimo e presente. Parecia um golpe do inconsciente, um lapso proposital, um desejo reprimido.
Quem tem Alzheimer em estado avançado está lá, mas não está, é a pessoa, mas não é. Pensa de uma forma peculiar; talvez tais pensamentos façam algum sentido, talvez ela tenha se acostumado com a confusão deles; ou talvez deixe de pensar, já que eles não se concluem."

O livro não é sobre uma coisa só: é sobre a ditadura, é sobre a perda de um pai, é sobre a infância, é sobre Alzheimer e sobre tantas outras coisas que fica difícil listar aqui. É sobre vida, afinal, e a vida não se resume a um aspecto apenas. Acho que foi essa forma de mostrar a complexidade de tudo que me fez gostar tanto do livro. Tratar de uma biografia de forma linear é desenhar a realidade de forma falaciosa, e Marcelo não fez isso. Ele fez bagunça com tantos temas e, sinceramente, a inconstância de suas reflexões me levou junto com ele nesse mergulho pelo passado.

Foi interessante ainda ver aspectos históricos e políticos do nosso país debatidos de maneira tão fluida, especialmente por se tratar de alguém que vivenciou aquilo. Para mim, que sou fascinada por História, em especial a do Brasil, percebi o livro como uma ótima oportunidade de compreender um pouco mais sobre essa época tão nebulosa que foi a ditadura, e a riqueza de detalhes é impressionante. Também pudera, Marcelo é jornalista, escritor e dramaturgo, e é nítido, pela quantidade de informações externas que trouxe para o livro, o quanto buscou a verdade sobre seu pai e sobre o regime.

Ainda estou aqui é sim uma biografia, mas não se contenta em narrar os acontecimentos da vida de alguém. A obra é rica em reflexões, estudos e contextualização política e, para aqueles que têm interesse em ler um relato realista e sincero sobre os mais diversos aspectos da vida, não tenham receio de apostar nesse livro.
Ju - Conjunto da Obra
Ju - Conjunto da Obra

Apaixonada pela leitura desde a infância, tantos livros lidos que é impossível quantificar. Alguém que vê os livros como uma forma de viajar o mundo e lugares mais incríveis que possam ser criados pela imaginação, sem precisar sair do lugar. Tem o blog como uma forma de dividir experiências e, principalmente, as emoções que as leituras despertaram, para compartilhar idéias e aproveitar sugestões de leitura, envolvendo mais e mais pessoas em um mundo onde a imaginação não tem limites.

11 comentários:

  1. Oi Ju!!
    Não conhecia o livro, gostei da resenha, mas não é mto o tipo que curto ler...
    Fica pra próxima...
    Bjs!

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  2. Ju!
    Sou uma das maiores fã do autor, porque em um momento bem crítico de minha vida, quando corria o risco (e ainda corro) de ir para cadeira de rodas, foi o livro Feliz Ano Velho que me impulsionou a continuar lutando e tendo forças para seguir em frente.
    E claro que quero poder ler essa biografia histórica, digamos assim, porque descobri que temos mais uma coisa em comum: uma mainha lutadora e com Alzheimer.
    “Sê humilde para evitar o orgulho, mas voa alto para alcançar a sabedoria.” (Santo Agostinho)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE MAIO 3 livros, 3 ganhadores, participem.
    http://rudynalva-alegriadevivereamaroquebom.blogspot.com.br/

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  3. Oi Júlia!!
    Não conheço o autor mas como sempre digo sempre gosto de conhecer de tudo um pouco nesse mundo da leitura então se algum dia eu tiver a oportunidade eu leria.
    Até mais!!!

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  4. Oi Ju! Não conhecia esse livro, eu curto ler biografias, excelente resenha, fiquei bastante interessada em conferi essa história.
    Bjs

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  5. Também não sou fã de biografias, embora essa seja diferente quem sabe dou uma chance afinal é importante saber mais sobre esse período por alguém que o presenciou, deve ser comovente e sofrido, a mãe dele é uma verdadeira guerreira por tudo que teve que enfrentar.

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  6. Ainda estou aqui parece ser uma boa leitura tanto para reflexão da vida de Marcelo como também para se adentrar nas memórias dele. Espero um dia ter a oportunidade para ler este livro.

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  7. Olá Ju,
    Bom não sou muito fã de ler biografia mas esse me pareceu bem interessante, não sei se leria mais adorei bastante a forma de como ele conta sua historia e muito bom isso!

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  8. Ainda não conhecia o autor e fiquei encantada com a história gosto de muito de relatos reais e essa interconexão de fatos do passado com as suas impressões do futuro achei super legal, além da abordagem dos mais diversos assuntos e também pelo relato de alguém que passou pela ditadura, também gosto de história.Fiquei com muita vontade de conferir a leitura.

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  9. Oi, adorei a resenha, mas não pretendo ler pois não me interessei, eu tambem não gosto de biografias. Adorei essa capa.

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  10. Oi Ju!
    Nossa, que legal! Sério, eu também tenho muito problema com biografias. São pouquíssimas as que conseguem me fazer ter vontade de ler, até hoje acho que só li O diário de Anne Frank e a biografia de Clarice Lispector, mas sua resenha me deu vontade de conhecer o trabalho do autor, quem sabe não entra na minha lista um dia? Beijinhos
    www.fabricandoalgunssonhos.blogspot.com.br

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  11. Gostei da influência dos acontecimentos dos Brasil na vida de uma pessoa. Geralmente não se fala muito sobre isso mais do que o necessário. Gosto muito do tema Alzheimer e achei interessante abordar isso na biografia. E também não sou muito fã de biografias... mas gostei dos temas e vou saber mais.

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